Thursday, December 14, 2023

Volta para a tua terra

 "Volta pra a tua terra!" - Como uma litania, a frase, - muitas vezes esbravejada em tom de ataque para que assim ocorra uma fuga - adentra nossos ouvidos, faz tremer os cristais que ali temos, passa por nosso bulbo raquidiano, que em seguida leva ao tálamo, que será responsável por processar uma resposta motora. Seja essa resposta som ou movimento. Mas, apesar da resposta neurofisiológica usual, esta frase fica a saltar em nossas cabeças, entre sinapses e centros cerebrais, levando a falta de ação, a uma caixa de voz que parece não funcionar. Atada por nós que fariam navegantes orgulhosos. 

Quando em criança imigrei para Portugal e soube que esta seria minha nova casa, pensei: "Existe casa longe de casa?". Tendo sido sempre uma nómada em meu próprio país, a cada um ano em uma nova morada, Portugal me pareceu só mais uma morada. Nunca consegui criar raízes antes, não havia tradições, amigos/as de infância, ou aquele sítio que sempre visitava por que, de alguma forma, me marcou. Então vim para esta terra lusa, de coração aberto e braços abertos. 

Contudo, quem abre os braços está somente a revelar seus pontos fracos, e logo que comecei a escola, o meu primeiro "Volta para a tua terra", me esbofeteou e mandou-me ao chão. É fácil imaginar, que alguém originalmente vindo de um país pobre, cheio de violência e fome, achou Portugal um paraíso. Um verdadeiro conto de fadas. Mas aí está a questão, contos de fadas não existem. Aos 13 anos, a refazer o 7º ano, era uma pessoa "bem-vinda" à escola com empurrões, puxões de cabelo, e palavras de baixo calão. Por parte dos alunas/os e professores/as. Mal sabia eu, que o "Volta para tua terra!" seria de todos, o insulto mais leve. 

Seria eu, tão assim diferente do próximo, só por ter uma nacionalidade diferente? Como não queria ser diferente, não queria sofrer, logo então, me moldei, tentei me integrar. Adeus sotaque "brasileiro". Nas aulas de Português, apenas notas negativas, por não saber a ortografia. Sentia-me uma pessoa analfabeta funcional. Vestia-me igual a eles e elas, alisava o cabelo igual a eles e elas, berrava asneiras igual a eles e elas. Dentro da escola, nunca mais proferiria sequer uma palavra "brasileira". A não ser que fosse cunho de entretenimento aos/as meus/minhas pares, uma pequena amostra quando requisitavam - "Fala brasileiro! Fala!". 

Com o passar do tempo as falas não eram mais direcionadas a mim, de modo geral, e sim somente aos/as brasileiros/as. Como no dia em que a professora de Língua Portuguesa , durante a aula, atestou ao fato de que todas as brasileiras eram p*tas, pois havia ela encontrado cuecas em baixo da cama, e ela tinha certeza que seu marido a havia traído com uma "brasileira de m*rda!". 

Tal violência não ficou só comigo, havendo chegado a este país com mais dois irmãos, os dois sofreram violências mais visíveis. "Ó brasileiro de m*rd@", a cabeça de meu irmão abrindo depois de ser mandado aos matraquilhos. "Sai de cima dele, seu imigrante preto!" Quando meu irmão tentou se defender quando um miúdo da escola tentou lhe bater na rua. 

As marcas que isso deixa são várias. Fomos embora de Portugal, crescermos, amadurecemos, fizemos faculdade, trabalhamos, viramos adultos. Dez anos depois, voltamos. Até hoje quando converso ao telefone com desconhecidos, utilizo sotaque "português", quando vou ao banco, quando vou ao talho. Dantes, na escola, a minha melhor amiga da altura, me ouviu falar português brasileiro, uma vez, quando fui falar com minha mãe as escondidas à casa de banho. Até hoje, meu irmão não consegue se conectar com pessoas portuguesas, que apesar de existirem um mar de pessoas boas e não xenofóbicas, o trauma continua. É difícil confiar. 

Apesar de todo o trauma, Portugal deu a mim um sentimento que o Brasil nunca conseguiu dar: de lar, de casa. Quando retornei, finalmente senti que as coisas se alinhavam, quando ando pelas ruas, tenho um sentimento de nostalgia, de estar em meu elemento. "Existe casa longe de casa?" Existe sim. Mas nem toda casa é perfeita. 

Em contacto com diversas/os imigrantes que têm filhas/os em Portugal e no sistema público de educação, questiono: "Sofrem muito preconceito? É difícil a integração? Eles/Elas estão a usar sotaque?". E os pais e as mães sempre respondem em tom de confusão, que não. Que suas crianças hoje sentem-se bem integradas e têm muitas amizades. 

Entretanto, isto só quer dizer que as coisas são mais sutis. Como na matéria escrita pela jornalista Paula Sofia Luz do jornal português Diário de Notícias, em que compara no texto de título, "Há crianças portuguesas que só falam 'brasileiro'", o fato de crianças portuguesas assistirem vídeos de youtubers brasileiros e falar 'brasileiro', a um vício, como drogas e alerta as/aos responsáveis de educação, com aval dos/as professores/as, que isto "é preocupante" ou que "não passa de uma fase, assim como aconteceu com as novelas".

Várias contas do instagram e twitter, tais como a Plataforma Geni repudiaram esse fato. A @plataformageni, um espaço de igualdade e justiça social das mulheres brasileiras migrantes foi além e prestou queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), para que este ato de xenofobia não passe impune.

Fico feliz, por um lado que menos crianças se sentem isoladas, pois a minha experiência era composta de solidão, isolamento, angustia e dor. E por muito tempo pensei que não poderia retornar a Portugal, não sabia que esta terra era minha verdadeira casa. Sentimentos estes que tornavam difícil enxergar, que nacionalidade não define casa. Que o amor à terra, parte do ser e estar. Por outro lado, ainda assim é importante lutar, lutar para que haja igualdade e dignidade. Para que as oportunidades sejam as mesmas, para que uma criança possa crescer, estudar e brincar normalmente, independente da sua nacionalidade. 

O movimento brasileirasnaosecalam, em seu instagram (@brasileirasnaosecalam) publicam relatos dos diversos tipos de xenofobia sofridos por mulheres brasileiras, pelo fato de serem mulheres brasileiras, em que estas são sexualizadas, humilhadas e inferiorizadas, através de um esteriótipo, e não só em Portugal, mas pelo mundo a fora. O mesmo acontece com suas/seus filhas/os na escola. O movimento disponibiliza grupo de apoio, facilita procura de emprego, apoio social com consultoria jurídica e psicoterapia para mulheres e mães migrantes em situação de violência doméstica e abre espaço para voluntariado.

Hoje sinto que voltei para a minha terra. E estou aqui para ficar.


Referências

https://www.dn.pt/sociedade/ha-criancas-portuguesas-que-so-falam-brasileiro-14292845.html

https://www.instagram.com/plataformageni/

https://www.instagram.com/brasileirasnaosecalam/

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